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Nossos Heróis no Banco de Reservas – “Coluna Além do Placar”

*Por Márcia Victorio

Estamos vivendo mais uma Copa do Mundo e durante algumas semanas, milhões de pessoas reorganizam a rotina para acompanhar o futebol. Comentam escalações, analisam desempenhos, comemoram vitórias e lamentam derrotas.

Mas o esporte nunca fala apenas de esporte.

Nesta coluna não vamos falar apenas de futebol. Vamos falar sobre gente. Porque toda vez que a bola rola, algo da condição humana entra em campo. E é nesse território, onde o esporte encontra a experiência humana, que nasce a coluna Além do Placar.

Como acreditamos aqui no Alma do Esporte, todo jogo tem uma história. E toda história tem alma. É essa alma que pretendo buscar aqui. Não para analisar esquemas táticos ou discutir estatísticas. Mas para olhar para aquilo que acontece dentro das pessoas enquanto o esporte acontece diante delas. O esporte é muito mais do que competição. É expressão de vida, cultura e transformação. E poucos lugares revelam tanto a condição humana quanto o futebol.

A psicanálise mostra que não nos mobilizamos apenas pelos fatos. Somos mobilizados pelos significados que atribuímos a eles. Por isso, uma simples decisão técnica pode provocar reações que ultrapassam as quatro linhas.

Foi exatamente o que aconteceu nesta Copa: Neymar está no banco.

Bastou isso para que surgissem debates, críticas, defesas apaixonadas e incontáveis opiniões. Nas redes sociais, nos grupos de mensagens e nas mesas de bar, a discussão parece não ter fim.

À primeira vista, estamos falando de futebol. Mas a intensidade da reação revela outra coisa. Não é apenas a ausência de um jogador que incomoda. É o lugar que ele ocupa no imaginário de milhões de pessoas.

No esporte, alguns atletas deixam de representar apenas a si mesmos. Eles se tornam símbolos e passam a carregar expectativas, memórias e desejos coletivos. Representam momentos da nossa história, vitórias que celebramos, emoções que compartilhamos, sonhos que aprendemos a alimentar. Quando isso acontece, deixamos de enxergar apenas o atleta e passamos a enxergar uma ideia.

É por isso que a ausência de determinadas figuras provoca tanta inquietação. Porque ela nos confronta com uma verdade que preferimos esquecer: ninguém permanece para sempre no centro do palco.

Nem os craques. Nem os campeões. Nem os ídolos. Nem mesmo nós.

O esporte nos lembra constantemente da passagem do tempo. Novos talentos surgem. Os ciclos mudam. Os protagonistas se transformam. As pessoas vêm e vão. Mas abrir mão de uma idealização nunca é simples.

Gostamos de acreditar que certas figuras permanecerão exatamente como as conhecemos. Gostamos da segurança que elas oferecem. Gostamos da história que construímos em torno delas. Por isso, o desconforto raramente está no banco de reservas.

O banco é apenas o cenário. O desconforto está na dificuldade de aceitar que as pessoas mudam, que os ciclos terminam e que nenhuma trajetória permanece congelada no auge. Quando um ídolo deixa de ocupar o centro da cena, não estamos assistindo apenas a uma mudança esportiva. Estamos assistindo ao fim de uma imagem que ajudamos a construir. E toda despedida produz algum tipo de resistência, mesmo que por um curto espaço de tempo.

O esporte tem a capacidade rara de tornar visíveis experiências profundamente humanas. Ele expõe nossos vínculos, nossas expectativas, nossas projeções, nossas idealizações, nossa alma.

Por isso, uma decisão do treinador pode revelar muito mais do que uma escolha tática. Pode revelar a maneira como lidamos com a mudança. Com a passagem do tempo. E com a difícil tarefa de reconhecer que nossos heróis também são humanos.

A verdadeira pergunta não é por que um jogador está no banco. A pergunta é: o que acontece dentro de nós quando nossos heróis deixam o centro do palco?

Porque o jogo acaba, mas a história continua.

 

*Márcia Victorio é psicanalista, terapeuta familiar e escritora. Há mais de duas décadas dedica-se à escuta das histórias humanas. Na coluna Além do Placar, busca a alma presente nas emoções e desafios que o esporte revela e convida o leitor a olhar para além dos resultados, explorando os significados e as experiências que fazem parte da vida dentro e fora das arenas.

 

ALMA DO ESPORTE

Um portal onde o jogo não acaba após o apito final, continua com as histórias nas arquibancadas e na vida dos amantes do esporte!

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