Foto de Rebeca Reis/Staff Images Woman/CBF

A Copa do Mundo Feminina ficou mais ofensiva? Os números não são tão simples

Foto de Rebeca Reis/Staff Images Woman/CBF

Por Mariana Barboza

A Copa do Mundo é, por natureza, um torneio imprevisível. Um formato curto, com poucos jogos e disputado a cada quatro anos. Nesse contexto, pequenas variações podem ter impactos enormes: novas gerações surgem, equipes evoluem e o equilíbrio entre seleções muda rapidamente.

Talvez seja exatamente isso que torna o torneio tão envolvente. Mas será que essa imprevisibilidade também aparece nos dados?

A Copa do Mundo Feminina está mudando, mas não da forma que parece. Os gols diminuíram. Mas, ao mesmo tempo, jogos com muitos gols ficaram mais frequentes. Como isso é possível?

A média de gols caiu, mas isso não conta toda a história

Ao comparar as Copas do Mundo de 2019 e 2023, o primeiro dado chama atenção: a média de gols por jogo caiu de 2,81 para 2,56.

Em um primeiro momento, isso poderia indicar uma redução na ofensividade das partidas. No entanto, olhar apenas para a média pode esconder comportamentos importantes.

Um torneio maior e mais diverso

Antes de tirar conclusões, é importante considerar o contexto.

A edição de 2023 foi expandida, passando de 24 para 32 seleções. Com isso, novas equipes participaram do torneio, ampliando a diversidade geográfica e o alcance global do futebol feminino. Essa mudança estrutural pode impactar diretamente a dinâmica dos jogos.

Ao analisar a frequência de partidas com muitos gols (4 ou mais), surge um comportamento curioso:

Em 2019, cerca de 19% dos jogos tiveram 4 ou mais gols, enquanto em 2023, esse número subiu para quase 30%. Ou seja: a média de gols caiu, mas os jogos com muitos gols aumentaram

Esse contraste levanta uma questão importante:

Os gols realmente diminuíram — ou apenas passaram a se distribuir de forma diferente? Será então que os jogos ficaram mais equilibrados?

Para entender melhor esse comportamento, é possível olhar para o equilíbrio das partidas.

A diferença média de gols permaneceu praticamente estável:

  • 2019 → 1,88
  • 2023 → 1,81

Além disso, a proporção de jogos com placares apertados (diferença de até um gol) também apresentou apenas uma leve variação:

  • 2019 → 55,76%
  • 2023 → 57,81%

Isso sugere que, no geral, o nível de equilíbrio entre as seleções não mudou de forma significativa.

Mais variabilidade nos resultados

No entanto, ao observar a distribuição dos placares, surge um padrão interessante.

Em 2023, os resultados aparecem mais espalhados: há tanto jogos equilibrados quanto partidas com diferenças mais elevadas no placar. Esse comportamento indica uma maior variabilidade, com coexistência de jogos fechados e jogos mais abertos.

Enquanto na edição de 2019, a distribuição de gols se concentra entre 0 e 5, constando apenas um jogo fora desse intervalo (considerado outlier), o memorável confronto entre Estados Unidos (13) x (0) Tailândia.

Essa diferença fica evidente ao visualizar a distribuição da diferença de gols:

diferença de gols

Mais empates, mais competitividade

Outro dado reforça essa leitura. A proporção de empates aumentou significativamente:

  • 2019 → 7,7%
  • 2023 → 20,3%

Esse crescimento sugere que uma parcela maior das partidas foi disputada de forma equilibrada até o final, com mais jogos sem um vencedor definido.

Então, a Copa do Mundo Feminina ficou mais ofensiva?

A resposta não é tão direta. A análise mostra que:

  • a média de gols diminuiu
  • mas os jogos com muitos gols se tornaram mais frequentes
  • o equilíbrio médio permaneceu estável
  • e os empates aumentaram significativamente

Em conjunto, esses resultados apontam para algo mais interessante: Mais do que mais ofensivo ou mais defensivo, o futebol feminino parece estar se tornando mais imprevisível.

Com mais seleções, maior diversidade e diferentes níveis competitivos, o torneio de 2023 apresenta um cenário com maior variabilidade de resultados, e talvez esse seja um dos sinais mais claros da evolução da modalidade.

E o que vem pela frente?

Com a Copa do Mundo de 2027 se aproximando, será que estamos caminhando para a edição mais imprevisível da história do futebol feminino, ou ainda há espaço para uma nova transformação no jogo?

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